ELIAS RICARDO SANDE

ELIAS RICARDO SANDE
PSICOLOGO SOCIAL E DAS ORGANIZACOES

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Conceito de Mulher: Perspectiva africana


1. Introdução
O presente trabalho, surge no âmbito da cadeira de Perspectivas Africanas dos Fenómenos Psicológicos, e tem como objecto a mulher. O trabalho tem como objectivo fazer uma análise da visão que as diferentes sociedades têm em diferentes épocas do que é ser mulher, e dos papéis que são a ela atribuídos em cada contexto sócio-cultural.
O trabalho é de grande importância, pois como psicólogos é necessário conhecer e entrender todo o conjunto de valores e expectativas ligadas à mulher, assim como os preconceitos ligados a ela, que podem contribuir positiva ou negativamente na estruturação da sua personalidade, ocasionando auto-estima baixa e levando à inibição das suas ambições por exemplo.
Ao longo do trabalho, são abordados assuntos ligados a mulher, começando pela conceitualização sob perspectiva de um psicólogo clássico ocidental (Sigmund Freud), na visão ocidental actual e também na prespectiva moçambicana; passando pela análise da construção social do conceito, onde discute-se a socialização como sendo o factor primordial para a construção do conceito mulher; por fim faz-se a descrição de alguns ritos e tradições que envolvem a mulher na zona sul de Moçambique (a escolha desta região deveu-se ao facto da bibliografia consultada não abordar outras zonas do país).
A metodologia utilizada para a realização trabalho, foi a revisão bibliográfica; o trabalho aqui apresentado é o resultado do que foi consumido da leitura e análise de várias obras, cujas referências se encontram no fim do trabalho.
2. Conceito de Mulher
Uma mulher (do latim mulier) é um ser humano do sexo feminino,que atinge a fase adulta após percorrer a infância e a adolescência. O termo mulher é usado para indicar tanto distinções sexuais biológicas quanto distinções nos papéis sócio-culturais; e é com base nestes papéis sócio-culturais que são contruídos diferentes conceitos de mulher em diferentes contextos. (Wikipedia).
A situação real das mulheres não é idêntica em todas as sociedades e em todos os tempos. Este aspecto é analisado de seguida: são abordados diferentes conceitos de mulher existentes em diferentes contextos e em diferentes tempos.

3. Uma Análise Comparativa – Conceito de Mulher com base na Psicologia Clássica de Freud, no Contexto Ocidental e na Realidade Moçambicana

3. 1. Conceito de Mulher com base na Psicologia Clássica de Freud
Para Freud, cada um aprende a assumir a sua realidade sexuada ou, a resignar-se a ela, quando se trata da menina. Para ele, a menina é diferente do rapaz, sendo inferior a este, privada como está do pénis que lhe falta, de que tem "inveja". O sexo feminino é definido negativamente em relação ao sexo masculino. Tornar-se mulher é aceitar não ser homem. Em linhas gerais, o pensamento freudiano, sublinha o dimorfismo, ou mesmo a dissimetria, dos sexos: não há libido senão masculina.
Além disso, a psicologia Freudiana, valoriza muito o papel da mulher – mãe como personagem central da família, responsável pela saúde e equilíbrio dos filhos. Neste sentido, se o corpo da mulher, fora feito para gerar filhos, não seria então natural que uma mulher não os tivesse, não os amamentasse, não fosse inteiramente devotada a eles. Logo, foram criados apenas dois modelos rígidos como opção para as mulheres: a que seguia a sua "natureza" e era naturalmente submissa, devotada, bondosa, comedida, discreta, boa mãe, boa filha, boa esposa, obediente, entre outros; e a que não seguia a "natureza" e não era vista com bons olhos pela sociedade. (Martins, 2006).
Ao longo da história, a teoria Freudiana sofreu alterações e ampliações de conceitos. E aqui pode-se rever a postura comum actual, de que as mulheres sempre foram representadas por homens, nas diversas ciências. Na verdade, as mulheres também foram representadas por mulheres, como as psicanalistas discípulas de Freud, que pensaram como e a partir das representações masculinas. Muitas das que foram consagradas e saíram do anonimato foram justamente aquelas que souberam desenvolver as teorias dominantes da época sem romper com a sua base masculinizante, patriarcalista e repressiva. (Martins, 2006).
Analisando, a psicologia clássica de Freud, pode-se observar que nas sociedades Ocidentais antigas, tinha-se o conceito de mulher, como sendo inferior ao homem, cujo papel principal era apenas o de maternidade. Aliáis, segundo Heritier, F. (2002), as raras valorizações do feminino que houve nos tempos antigos eram baseadas, na sua maioria, na noção de maternidade. Assim, as mulheres estéreis eram facilmente repudiadas. Eram também repudiadas as esposas que só dessem à luz raparigas. Em muitas regiões do mundo a única criança que conta é o macho. Diria-se com facilidade que um homem não tem crianças, se só tem filhas.

3. 2. Conceito Ocidental Actual de Mulher
Com toda a sua inegável contribuição ao campo da sexualidade, iniciada na segunda metade do século XIX, a concepção de Freud apoia-se num tipo de pensamento conservador e dominante do seu tempo. Conservador e dominante porque segundo Martins, V. (2006), 26 anos antes do nascimento de Freud, Charles Fourier já esboçava um certo progressismo quando escrevia em seus textos que o progresso e a felicidade de toda a humanidade se fazem em relação ao grau de liberdade das mulheres. Karl Marx já afirmava em A Ideologia Alemã, em 1842, que o trabalho assalariado representaria o primeiro passo para uma autonomia das mulheres.
O conceito Ocidental de mulher nem sempre foi, como é actualmente. Nas sociedades ocidentais tradicionais a mulher era considerada inferior. Por exemplo, segundo Machado, F. (2010) em Atenas (na Grécia Antiga), as mulheres, assim como os escravos, não eram consideradas cidadãs.
Na Europa do século XVII, as mulheres não diferiam dos escravos e os abusos físicos a que eram submetidas pelos maridos eram considerados fora do âmbito das Leis. A educação das mulheres era malvista, pois eram consideradas inferiores aos homens.
Mais tarde, em pleno movimento iluminista, o Francês Condorcet, reivindica publicamente o direito de participação política, emprego e educação para as mulheres. Lucrécia Mott levanta sua bandeira de luta pela igualdade de direitos para as mulheres e os negros nos Estados Unidos em 1848. Ela denuncia as restrições, contestando também o facto de a mulher não poder votar nem filiar-se a organizações políticas. (Pigatto, 2008).
Assim, com o tempo, foram surgindo mais e mais reivindicações e a mulher foi aos poucos conquistando novos papéis na sociedade moderna, e a desempenhar novas tarefas, que antes eram reservadas apenas aos homens. Isto é o que se observa na actualidade, pelo menos nas regiões urbanas de praticamente todos os países do mundo.
Mesmo assim, segundo Heritier, F. (2002), a mulher continua ainda a sofrer em todos os lugares do mundo uma certa discriminação política: o último bastião contra o direito de voto das mulheres, a Suíça, só caiu na última década; em França, as mulheres só têm este direito em 1944. Porém, se o direito de voto está conquistado, o direito e sobretudo a possibilidade oferecida às mulheres de serem eleitas não estão. O lugar das mulheres é muito restrito nos governos e nos gabinetes ministeriais onde se exerce o poder executivo. Em 2000, em 190 países, havia apenas 6 mulheres à cabeça do Estado, 3 com uma mulher como primeira ministra, e 48 países não tinham nenhuma mulher no governo. As mulheres são também, mais atingidas do que os homens pelo desemprego e pelo emprego parcial.
Além desta discriminação política e profissional, a mulher sofre também uma discriminação educativa e científica: segundo a UNESCO, dois terços dos 875 milhões de analfabetos no mundo são mulheres. O mundo das ciências tinha vindo sempre a ser construído, como um mundo sem mulheres, com proibições explícitas e legitimadas por um discurso sobre a inferioridade intelectual das mulheres. (Heritier, 2002).

3. 3. O Conceito Moçambicano de Mulher
No contexto moçambicano tradicional, a mulher é vista como uma pessoa que desempenha principalmente dois papéis: ser esposa e mãe. A ela são atribuídas apenas tarefas domésticas. O trabalho e a emancipação da mulher é vista como não tendo uma necessidade aparente, pois existe a ideia de que se as mulheres têm uma aptidão para fazer filhos, devem limitar-se exclusivamente a este papel e aos seus anexos de amamentação e serviço. As mulheres não são vistas nem tratadas como sujeitos de direito, como os homens são. (Heritier, 2002).
Pode-se observar, que este conceito de mulher existente nas sociedades tradicionais de Moçambique, é semelhante ao conceito que existia nas sociedades antigas do Ocidente, antes do processo de emancipação da mulher.
Actualmente, mesmo em Moçambique, para além das comunidades tradicionais que têm esta visão de mulher, já houve um progresso, e existe, principalmente nas zonas urbanas, uma visão diferente com aceitação da emancipação da mulher.
A FRELIMO, desempenhou um papel de grande importância para a ocorrência da emancipação da mulher em Moçambique. Foi no início da luta nacionalista que pela primeira vez foi defendido o princípio de igualdade entre homens e mulheres. A FRELIMO tinha como objectivos principais garantir uma definição clara da inserção da mulher no contexto do movimento da luta nacionalista, porque apercebeu-se que só quando o povo mulher fosse livre, estaria assegurada a própria libertação do povo homem e do povo moçambicano em geral.
Foi impelida pela visão de que as mães têm um papel inestimável na modelação positiva duma sociedade, que a FRELIMO proclamou que o sucesso da luta pela independência dependia fundamentalmente do sucesso da emancipação das mulheres moçambicanas; daí que, com o empenho abnegado, as próprias mulheres que se viam sendo salvas, tudo fizeram para se ir quebrando as barreiras coloniais e machistas que as impediam de desempenhar a sua quota-parte no país, tendo passado a estar também em todas as frentes que a luta impunha a todos os moçambicanos, independentemente do seu sexo. Hoje, volvidos apenas quase 50 anos, a mulher moçambicana quebrou as amarras e desfruta já da luz do sol, estando presente em todas as esferas da vida de onde antes era repelida com fúria e desdem.

4. O processo de Socialização como factor chave na construção do Conceito de Mulher
Segundo pesquisadores e historiadores, desde o inicio da civilização , o homem busca viver em sociedade, grupos ou clãs. Nestes clãs, o mais forte dos homens se destacava para liderar os outros na caça, e as mulheres eram somente para a continuação da espécie. Os filhos homens gerados seguiam os passos do pai e as meninas da mãe.
Na Idade Média, a mulher é vista como procriadora, cabendo a ela criar e educar os filhos. Os homens da casa eram enviados para internatos para serem educados, cabendo tão somente a mulher administrar a sua casa, cuidar do seu marido, e dar ordens à criadagem. A sociedade não permitia que as mulheres se manifestassem em público, para expor suas ideias e pensamentos; a mulher não podia tomar a frente em um parlamento, isso era considerado um ultraje aos homens.
Mesmo com a evolução do homem a sua ideia de liderança ainda permanece, muitos ainda não aceitam ser comandados por mulheres porque acham que lugar de mulher é “pilotando um fogão ou um tanque de roupas”. O homem sempre foi considerado o sexo forte e a mulher o sexo frágil, cabendo ao homem o sustento da casa.
(Sayão, 2009).
O conceito de mulher como já foi inicialmente referido, varia de sociedade para sociedade, ou seja, depende dos valores culturais de cada sociedade. Desta forma cada sociedade atribui os papéis que acha adequados para cada um dos sexos, e esta distribuição de papéis começa desde a nascença no meio familiar.
Segundo Amâncio, L. (1998), os papéis sociais referem-se às normas de comportamento que no seio da família, se traduzem tradicionalmente numa distribuição de tarefas. É inicialmente na família que a mulher aprende o que deve ou não fazer, quais os seus papéis, e como deve se comportar quer no seio familiar, assim como na sociedade em geral. A divisão “universal” dos papéis entre os sexos no seio na família parece contribuir, de facto, para a estruturação dos esteriotipos sexuais.
Os papéis e a distribuição de tarefas, enquanto padrões comportamentais desejáveis contribuem, para que as crianças diferenciem perceptivamente as actividades masculinas e femininas sob forma do que devem fazer os homens e as mulheres. Segundo Amâncio, L. (1998), de entre várias subcategorias de mulher, a que se reúne maior consenso nos traços utilizados pelos sujeitos para a sua descrição é a de mulher dona de casa.
Em todas as sociedades, ao homem são mais frequentemente atribuídos comportamentos agressivos (estes são vistos como sendo normais e aceitáveis nos homens), enquanto a capacidade de perdoar e harmonizar são vistas como sendo mais das mulheres. Estas imagens são incutidas nas pessoas desde a infância – pode-se observar isso, por exemplo, através da diferenciação dos brinquedos que são oferecidos aos meninos e às meninas; aos meninos são frequentemente oferecidos brinquedos como pistolas, bonecos de soldados; além disso os meninos jogam videogames que mostram lutas entre pugilistas, o que é muito raro entre as meninas. Às meninas são atribuídos comportamentos de passividade, tranquilidade e calma. Estas imagens criadas desde a infância, influenciam aquilo que será o comportamento tanto dos homens, como das mulheres na idade adulta, tendo interiorizado estes atributos.
Como exemplo das consequências desta interiorização, Osorio, M. (2000) refere que nas sociedades tradicionais de Moçambique, a violência contra a mulher, mesmo com danos, é representada pelos agentes de justiça como natural e culpabiliza-se a mulher, como o afirma um juíz de um tribunal comunitário de Tete: “hoje as mulheres não conhecem o seu lugar, não é como antigamente em que sabiam viver em harmonia.
A mesma autora refere que em algumas regiões do centro de Moçambique, as queixas de adultério cometidos por mulheres são feitas pelos maridos contra os amantes e nunca contra a mulher, pois é considerado vergonhoso, já que o homem é mais forte e poderoso e deve poder resolver a situação em casa (envolvendo muitas vezes a violência). Além disso, quando existe uma situação de abandono do lar pelo homem, e expulsão da mulher por motivo de agressão, a situação da mulher abandonada, é agravada pelo facto de socialmente não lhe ser reconhecido o estatuto de chefe de família, sendo mais vulnerável a violação dos direitos.
5. Tradições e Ritos Moçambicanos que envolvem a mulher (Região Sul)
5. 1. Antes do casamento
As raparigas Rhongas desde pequenas imitam tudo o que vêm a mãe fazer: cozinhar, apanhar a lenha, cuidar do marido e cuidam das suas bonecas como vêm as mulheres a cuidarem dos bebés.
Antes do casamento, as raparigas fazem jogos especiais, onde vão aprendendo qual é o seu papel na sociedade. Nuns jogos elas desempenham o papel de mãe, noutros elas aprendem algumas canções que permite ter uma boa colheita. (Junod, 1996).
Portanto, as raparigas aprendem a ser e a estar na sua sociedade, adquirem valores e costumes desde muito cedo de uma forma lúdica.

Costumes relativos à nubilidade
Ao tornar-se núbil, a rapariga separa-se da sua povoação, começa um período de margem que dura um mês. Durante este período, as raparigas são fechadas, atormentadas, beliscadas e arranhadas pelas mulheres mais velhas, pois neste período a rapariga é vista como sendo impura e nenhum homem deve-se aproximar dela. Também, cantam-lhes canções obscenas e ensinam-lhes segredos do seu sexo.
Este rito pretende mostrar a rapariga, que ela entrou para uma fase em que se torna impura e, alguns costumes específicos devem ter lugar.
Após a passagem por este rito, a rapariga volta a sua povoação, e nesse exacto momento se a iniciada foi já comprada pelo lobolo, a mãe leva-a ao futuro marido. Portanto, este rito significa a agregação da rapariga à sociedade adulta.
Os clãs pedi-suthu do Transval praticam também este rito, porém existem três outros costumes que se relacionam a este rito: a tatuagem, o de limar os dentes em ponta e o dos mileve (tem o objectivo de fixar a imaginação da rapariga sobre as relações sexuais). A operação da tatuagem é dolorosa, as raparigas choram, e só com pesar se submetem a ela, pois para os Rhongas, a tatuagem torna a rapariga mais bonita. (Junod, 1996).
É neste período que a rapariga torna-se mulher e, deve submeter-se aos ritos que a tornam mais bonita, de modo a ser apreciada e a arranjar um pretendente.

5. 2. Casamento e vida conjugal
Condições de casamento
Na tribo bantu primitiva, todas as raparigas se casavam, umas porém mais depressa que as outras. Os homens preferiam raparigas com membros vigorosos, estatura elevada, seios muito desenvolvidos, uma cara comprida, tom claro, com disposição para o trabalho e com ausência total de feitiçaria na família. O casamento é aceite a partir do pagamento do lobolo, quanto mais atributos a rapariga tiver, maior são as exigências do pagamento do lobolo. O casamento e os filhos são as únicas coisas oferecidas à mulher. A poligamia é algo comum nesta região. (Junod, 1996).



Tabus femininos especiais
Antes do primeiro parto, as raparigas não devem comer porco, lebre e antílope. O lábio superior de qualquer espécie de animal é–lhes igualmente proíbido, da mesma maneira a língua e o recto dos animais. As mulheres devem também abster-se de comer carne de porco-espinho e de macaco, pois os filhos parecer-se-iam com estes animais. Não devem igualmente comer ovos, pois o filho poderia nascer calvo e permanecer assim para sempre, ou no momento do parto ela poderia comportar-se como a galinha que corre de um lado para o outro antes de pôr o ovo.
As raparigas núbeis não devem aproximar-se e nem olhar para os bois durante o tihweti, pois eles poderiam sofrer e apanhar uma pneumonia. (Junod, 1996).

Casamento e vida conjugal
Uma mulher tsonga não pode imaginar a vida sem o casamento. Os pais previnem a rapariga que neste novo período da sua vida, poderá ser maltratada, acusada de feitiçaria e de adultério; por ter sido paga, a mulher é colocada num estado de inferioridade.
Há muito pouca intimidade entre o casal, o homem fica mais com os amigos na bandla, o largo da povoação, que lhes serve de lugar de reunião, e só raramente vai a palhota da sua mulher. A primeira mulher é a mais respeitada, a chamada “mulher grande”, as outras são “mulheres pequenas”.
Durante o período de mestruação, a mulher torna-se num dos tabus mais temidos e nenhum tipo de relação é permitido. O homem não deve comer a comida feita pela mulher e nem dormir na mesma esteira que ela. Se o homem transgredir essa lei, cai doente. (Junod, 1996).

Esterilidade, gravidez e o aborto
Quando uma mulher não tem filhos, os Tsongas oferecem um sacrifício aos deuses-antepassados, pois acreditam que estes são os responsáveis por enviar filhos. Fora do rito religioso, os doutores indígenas têm numerosas drogas para remediar essa infelicidade. Se o problema permanecer, a mulher é desprezada e devolvida para casa dos seus pais. Os pais da mulher devem arranjar uma irmã ou uma parente mais nova que a esposa para dar ao marido como segunda mulher.
Os Tsongas não consideram a gravidez período tabu, as relações sexuais são recomendadas, pois ajudam no desenvolvimento do feto.
O aborto é muito temido pelos sul africanos, uma mulher que teve um aborto é impura, pelo menos durante três meses, é necessário que as regras tenham aparecido pelo menos três vezes e a tenham purificado, para que o marido recomece a ter relações sexuais com ela. (Junod, 1996).
Além disso, o período de vusahana, que vai desde o parto até a queda do cordão umbilical, é muito receado. Quando se trata do primeiro filho, realiza-se o rito do kukunga. A criança é chamada n’wana wa mativula, a responsável por tornar a mulher mãe. Qualquer pessoa que quiser pegar a criança ao colo, deve pagar uma pequena quantia, mesmo que se trate de alguém da família, como uma forma de demonstrar a alegria por terem recebido um recém-nascido. O pai não está sujeito a esta regra, pois “a criança pertence-lhe”.
Quando a mulher perde uma criança (wa kufeliwa), é profundamente contaminada pela impureza da morte; ela própria deve enterrar o filho, sem ajuda do marido. Durante o luto, as relações sexuais são interditas à mulher, e o marido só poderá purificá-la depois de ter tido a mestruação por duas ou três vezes. O homem não usa o vestuário de luto, só a mulher o faz. Pelo desgosto da morte do filho, o marido tem o direito de acusar à mulher de feiticeira e que, pelo poder mágico comeu o próprio filho, o que pode muitas vezes acabar em divórcio. (Junod, 1996).

5. 3. Adultério
Entre os Tsongas, quando o homem mantém relações com uma mulher solteira, se não engravidar, não constitui um problema; mas se engravidar, o homem será apenas obrigado a casar. Um homem só é considerado adúltero quando tem relações com uma mulher casada, pois a mulher casada tem um dono (n’winyi), foi paga. Se o marido descobre, o adúltero deve pagar um lobolo inteiro ao marido da mulher adúltera. A mulher só é punida pelo marido e violentada, se for apanhada em flagrante.
O adultério muitas vezes constitui a causa de divórcio, em casos da mulher preferir abandonar o marido e ir viver com o amante. O marido abandonado vai imediatamente reclamar o lobolo. Os pais devem arranjar de imediato, nem que isso leve a dissolução do casamento do próprio filho. As outras causas do divórcio podem ser: a incompatibilidade de carácter, uma acusação de feitiçaria e a esterilidade. (Junod, 1996).
Analisando estes ritos, pode-se ver que a mulher é tratada como um objecto, visto que o marido tem o direito de ter amantes, porém ela não deve; no caso de ela ter algum amante, é reclamada uma quantia ao amante desta; assim, com um certo valor monetário as pessoas compram a dignidade da mulher.

5. 4. Viúvez
Qaundo um homem morre, as suas mulheres, sobretudo a primeira mulher, são contaminadas pela impureza da morte e, devem praticar cerimónias purificatórias especiais. Essas mulheres tornam-se propriedades da família do marido, fazem parte dos seus bens e, deverão ser repartidas pelos herdeiros. É considerado tabu um irmão mais velho herdar uma das esposas do defunto, pois é um pai para elas e não um marido. Portanto a partilha é feita da seguinte maneira: a mulher principal pertence ao irmão a seguir ao defunto, a segunda é atribuída ao segundo irmão, a terceira ao terceiro, a quarta ao ntukulu, ao filho da irmã do defunto e quinta será, então, do filho mais velho do morto. Porém para este último caso, respeita-se mais ou menos os sentimentos das duas partes.
A mulher mais velha, pode recusar ser adjudicada a um dos cunhados, mas não lhe será dada a permissão para se casar com alguém fora da família. Quanto as viúvas mais novas, é muito possível uma excepção à regra ordinária, se elas insistem em escolher um outro marido.
Antes de poderem voltar a vida normal, as viúvas passam pelo rito do kulahla khombo, para se desembaraçarem da morte. Antes da viúva poder ser mulher do novo marido, deve ter relações sexuais com um outro homem (chicombo), para que este tome sobre si a maldição. Entretanto, as viúvas velhas, que são incapazes de arranjar amantes podem ser purificadas por meio de drogas. (Junod, 1996).

5. 5. A velhice e a morte da mulher
As mulheres de idade e decrépitas são desprezadas, pois já não sendo capazes de trabalhar, tornam-se num fardo para os filhos.
A morte da mulher é acompanhada dos mesmos ritos que a morte do homem, porém, existe um costume dos mahloko, que tem lugar quando a mulher morre na flor da idade. Neste rito, os irmãos da defunta reclamam pela outra parte do lobolo, caso este não tenha sido pago por completo e, caso a defunta tenha deixado um filho. Porém, a família do viúvo tem o direito de reclamar a restituição do lobolo completo ou a oferta de uma irmã mais nova da defunta, quando a defunta não lhe deixou um filho. (Junod, 1996).
Mais uma vez pode-se notar que as mulheres são tratadas como objectos, sendo divididas entre os membros da família do marido como bens materiais. Para além disso, após a morte da mulher, o marido tem o direito de pedir o reembolso do valor pago no lobolo, caso a mesma não tenha sido útil para ele e para a sua família. Da mesma forma, a família dela trata-a como um fundo lucrativo.

5. 6. Um exemplo concreto
O exemplo concreto de um ritual moçambicano, foi descrito por uma rapariga Macua, de 18 anos de idade. Segundo ela, este ritual é feito quando as raparigas tornam-se núbeis, com o objectivo de iniciar a rapariga à vida adulta, mostrá-las quais são as suas responsabilidades e, quais são os tabus característicos da sua etnia. Este ritual não é feito as raparigas que já tenham filhos, por mais que sejam mães adolescentes.
O ritual tem a duração de uma semana e, deve-se fazer sempre colectivamente, juntando quatro à cinco raparigas num determinado espaço.
No primeiro dia, as raparigas são chamadas e trancadas num quarto, onde são ensinadas algumas canções e danças que irão representar no dia do ritual. Os ensaios duram até o dia do ritual, que será quatro dias depois. Um dia antes do ritual, as raparigas são trancadas numa palhota, longe da povoação, apenas uma mulher deves-lhes trazer as refeições.
No dia do ritual, as raparigas acordam bem cedo, através de sons de tambores (ekhoma). O ritual é realizado num quintal e, só devem participar mulheres que já tenham passado por este ritual, não é permitida a entrada de nenhum homem.
Fazem com que as raparigas sentem numa esteira, em fila e com os pés esticados. Em frente delas está a matriarca, que fala em língua local os ensinamentos sobre os deveres das raparigas, fazendo ver à elas, que já entraram para a fase adulta e, que devem proteger-se dos homens e ter mais responsabilidade, em termos de cuidar da casa dos pais e cuidar de si mesma, pois o dia dela ter a sua própria casa e a sua própria família está próximo. As raparigas passam o dia todo sentadas somente a ouvir e, não devem por hipótese alguma dobrar as pernas, pois mostra um certo desrespeito perante a matriarca.
Quando anoitece, as raparigas são levadas novamente para a palhota, onde vão descansar por algumas horas. No dia seguinte, as três da manhã, veêm acordá-las, vestem-lhes folhas de bananeira e pintam-lhes a cara com mussíro (uma massa branca, feita com o tronco de uma determinada árvore) e carvão. Começam a dançar e a cantar com as mulheres mais velhas aos sons de tambores. Quando o dia clareia, levam as raparigas para o mato, onde terá lugar um outro ritual, com o objectivo de ensinar a rapariga a ser forte e a conseguir ultrapassar todos os obstáculos da vida, sem medo. Quando as raparigas voltam do mato, são feitos mais alguns rituais dentro do espaço do ritual, tudo no mais puro mistério, a rapariga não sabe o que lhe vai acontecer, até que viva e veja com os seus próprios olhos. Nesse dia não se dorme, dança-se e canta-se até o dia raiar. É proíbido durante este período que a rapariga cuide da sua higiene. Quando amanhace, as mulheres mais velhas, chamam as raparigas uma por uma e, dão-lhes banho de purificação, em frente dos convidados. De seguida, as raparigas vão usar as suas melhores capulanas (um veste muito usado na região) e, quando saem da palhota, são recebidas com júbilo e com gritos característico dos Macuas. São cumprimentadas pelas mulheres da família e pelas convidadas, é um momento de alegria, pois as raparigas cresceram e entraram para uma nova fase da vida.
O ritual é encerrado com uma grande festa, é nessa festa que as raparigas vão cumprimentar os seus pais e, os outros membros homens da família, apresentando-se como numwari (donzela).
Analisando estas informações fornecidas pela rapariga macua, pode-se observar que os rituais à volta das mulheres em todo o país não diferem muito entre as regiões; embora nem todos os aspectos sejam comuns em todas as regiões, a essência do ritual é a mesma: preparar a mulher para a vida adulta, para a vida conjugal, purificá-la e mostrá-la que está a entrar para uma nova fase da vida, na qual novos hábitos e costumes começam a ter lugar.



6. Aprendizagens Feitas
Em todo o mundo e em todas as sociedades sempre existiu uma visão da mulher como sendo inferior. Este aspecto não é exclusivo a uma só cultura; porém como as sociedades progrediram e evoluiram, umas mais rapidamente, e outras lentamente, esta visão já se encontra ultrapassada em algumas sociedades, e em outras ainda persiste.
Os papéis que as mulheres desemepenham actualmente em cada sociedade (as maiores divergências existem entre as sociedades mais tradicionais e as sociedades mais modernizadas) constroem aquilo que é o conceito de mulher nessa sociedade, o que é o “ser mulher” nessa sociedade. Assim, uma mulher que numa sociedade se consideraria muito inteligente e importante, numa outra sociedade poderia ser vista como leviana e como alguém que não conhece o seu verdadeiro lugar.
Essa imagem do “verdadeiro lugar da mulher”, nasceu provavelmente, por ser a mulher que dá à luz as crianças e as amamenta, e por isso era necessário que estas tivessem um estilo de vida mais sedentário, e se ocupassem com tarefas menos pesadas em relação aos homens, além de terem que permanecer com os filhos para alimentá-los e cuidar deles.
As mulheres e os homens têm características biológico-fisiológicas, físicas e psicológicas diferentes por natureza; e esta natureza diferente lhes impõe funções e possibilidades diferentes. As mulheres são diferentes dos homens, e cada um destes grupos tem características específicas, não sendo por isso, uns superiores ou inferiores aos outros, mas sim, estas características devem ser vistas como sendo complementares para a criação de uma sociedade evoluída e ideal.

7. Conclusão
Em jeito de conclusão é importante frisar que a mulher tem travado diversas “lutas”, para alcançar a sua independência profissional e humana. Em tempos atrás não se podia imaginar com tanta precisão, que a mulher lutaria e conquistaria um espaço saliente na sociedade, sendo vista com capacidades de exercer papéis que nunca antes havia exercido, sem deixar de ser o que ela sempre foi: esposa e mãe. Portanto, mesmo com as mudanças sociais que estão ocorrendo em direcção a levar a mulher a adentrar no espaço público com mais freqüência e força, não se alterou o conceito de identidade feminina construído ao longo da história da humanidade. Ocorreu, no entanto, uma ampliação dos significados que compõem este conceito para que as novas funções sociais pudessem participar desse constructo. A mulher passou a constituir-se em múltiplas facetas, sem perder suas principais fontes de identificação que é a maternidade e a habilidade nos afazeres domésticos.
Porém, a conquista é ainda parcial, pois para além do espaço concedido à mulher ser bastante limitado, muitas delas devido as suas tradições sentem-se na obrigação de apenas servir os seus maridos e cuidar dos seus filhos. Portanto, as tradições de certo modo contribuíram e têm contribuído para o comportamento submisso, dificultando o desenvolvimento das capacidades e dos talentos que a mulher pode ter, e da missão que pode cumprir lado a lado com os homens, para o desenvolvimento da sociedade em geral.



8. Referências Bibliográficas
Amâncio, L. (1994). Masculino e Feminino. A Construção Social da Diferença. Porto:
Edições Afrontamento.


Heritier, F. (2002). Masculino / Feminino. Volume II. Lisboa: Instituto Piaget.

Junod, Henri A. (1996). Usos e costumes dos Bantus – Tomo I: vida social. Maputo: Arquivo histórico de Moçambique.

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Sayão, R. (2009). A família e a socialização. [on-line]. Disponível em http://pt.shvoong.com/society-and-news/news-items/1914317-familia-socializa%C3%A7%C3%A3o/ Acesso em: 21 de Abril de 2010.

Wikipedia. Mulher. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mulher> Acesso em: 21 de Abril de 2010.


2 comentários:

Celina Fernando disse...

obrigada pelo artigo foi muito util....

Celina Fernando disse...

obrigada pelo artigo foi muito util....

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