ELIAS RICARDO SANDE

ELIAS RICARDO SANDE
PSICOLOGO SOCIAL E DAS ORGANIZACOES

terça-feira, 22 de março de 2011

reexaminando a Psicologia: uma perspectiva Crítica e visão africana


1.      Introdução
O presente artigo consiste num resumo elaborada tendo como base principal os capítulos 8, 9, 10, 11 e 12 do livro Re-examining Psychology de T. Len Holdstock.
Este trabalho surge no âmbito da cadeira de Perspectivas Africanas do Fenómeno Psicológico. O objectivo do trabalho é tornar os estudantes cientes de diferentes aspectos que existem nas teorias psicológias previamente elaboradas, os quais precisam ser contextualizadas e reelaborados conforme o contexto em que forem ao aplicados.
A metodologia para a elaboração deste trabalho consistiu  na revisão bibliográfica da obra disponibilizada pelos docentes da cadeira .


2.      A Psicologia Rumo a Uma Consciência Africana
Alguns intelectuais africanos (poetas e escritores) mostram-se reservados à visão dos psicólogos Afro-americanos quanto a adequação da psicologia Euro-americana como uma psicologia que pode ser universalmente representativa.
Mphahlele (1987), um missionário creditado, de nome Edward Blyden, tornou-se mentor desta ideia, chamando atenção ao comportamento ultrajante por parte dos missionários e outros ocidentais na África. Ele foi a primeira pessoa a falar de uma personalidade própria dos africanos. Ao viajar para África ele se deu conta de como os seus colegas impuseram o Cristianismo aos africanos sem ter em conta as suas religiões. Os cristãos olharam para os africanos como pagãos e como crianças da escuridão. Ele também percebeu que os Europeus não apreciavam a poesia indígena ou história; além disso, ele apercebeu-se também da alienação do africano, o qual era bombardeado com ideias negativas sobre a sua própria cultura, obrigando-os a adoptar a cultura europeia.
Face a este cenário, intelectuais oriundos de diferentes partes do mundo organizaram encontros na Europa e Nova Iorque para discutir a questão da invasão do continente africano. Estas reuniões resultaram na formação do Congresso Pan-Africano, o qual focalizou a questão da união da cultura africana, onde os negros pudessem firmar-se perante o mundo. Eles propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias, divididas pelas imposições dos colonizadores. Valorizavam a realização de cultos aos ancestrais e defendiam a ampliação do uso das línguas e dialetos africanos, proibidos ou limitados pelos europeus.
O pan-africanismo é uma ideologia que propõe a união de todos os povos de África como forma de potenciar a voz do continente no contexto internacional. O pan-africanismo tem sido mais defendido fora de África, entre os descendentes dos escravos africanos que foram levados para as Américas até ao século XIX e dos emigrantes mais recentes.
Mphahlele citado por Holdstock (2000) afirma que o conceito da Personalidade africana expressa um desejo ardente para liberdade, autodeterminação, desejo para rejeitar o homem branco quebrando a administração cultural dele e a reinserção da sua dignidade, restaurando valores tradicionais, modos de vida, e hábitos.  
De acordo com Mphahlele (1963) citado por Holdstock (2000), a assimilação completa da cultura francesa arrancou as suas raízes africanas, o que deu origem ao ressentimento contra as pretensões de civilização européia. A negritude, tornou-se um acto de repulsão contra coisas europeias, foi uma ideologia de valorização da cultura negra em países africanos ou com populações afro-descendentes expressivas que foram vítimas da opressão colonialista.
Na África do Sul, o Congresso Nacional africano construiu no espírito do nacionalismo africano, agregando diversos grupos étnicos em um único movimento. Este movimento se expandiu durante os anos quarenta, culminando em reuniões de massa. As leis do país constantemente lembravam as pessoas que eles eram diferentes, que eram negros e de consciência naturalmente negra. 
Bantu Stephen Biko, embora que não fosse psicólogo no sentido formal do termo, expressou uma aspiração poderosa de que o africano é dotado de aspectos psicológicos, ou seja, fez uma aproximação africana àquilo que é a psicologia. É oportuno afirmar que o empenho de Biko teve implicações psicológicas, pois, elevou a consciência dos africanos sobre a importância de estar em contacto com quem eles eram e com as condições as quais eles foram forçados para viver.
Biko queria que o movimento da Consciência Negra desenvolvesse no africano uma auto-consciência, um senso de dignidade. 
Como primeiro passo vital para emancipar os seus camaradas africanos, Biko queria que eles apreciassem a sua bondade inata como pessoas. De acordo com Biko citado por Holdstock (2000), vários factores contribuíram para a pobre auto-imagem entre os negros sul africanos. Por causa da habilidade que a cultura branca tem para resolver muitos problemas nos campos médicos, agrícolas, e tecnológicos, tendeu a ser considerada como cultura superior. Quase tudo o que a criança negra era exposta durante o seu desenvolvimento reforçam até certo ponto um senso de inferioridade. As suas Escolas, ruas, casas, instalações desportivas, e organizações são todas diferentes das dos brancos. Estas diferenças criam um senso de estado incompleto na sua humanidade, onde a perfeição é encontrada na cultura branca. Isto é levado a cabo até a fase adulta.  
A cultura africana se tornou num barbarismo; os brancos que estudaram o passado dos africanos acabaram por distorcer e desfigurar a história negra; as praticas religiosas e os costumes eram considerados superstição. A história de sociedades africanas foi reduzida a batalhas tribais e guerras.  
A consciência negra, procurou encaixar as pessoas num processo de emancipação, livrá-las de uma situação de escravidão. O real propósito era proporcionar esperança, fixar um novo estilo de auto-confiança e dignidade para os negros como uma atitude psicológica que conduz a iniciativas novas (Biko citado por Holdstock, 2000).

2.1.   O Contributo de Frantz Fanon na Psicologia Africana
 Fanon foi um psiquiatra proeminente que reflectiu acerca da aplicação de princípios psicológicos na África contemporânea. A contribuição de Fanon não se cingiu apenas a aspectos ligados ao colonialismo mas também aos efeitos que a própria colonização causou ao africano. Ele trabalhou com a psicologia das pessoas colonizadas (antes e depois), como também com a psicologia da mentalidade colonial. As contribuições de Fanon ocorreram durante os anos cinqüenta e inicio dos anos sessenta, e estas iluminaram o africano rumo a descolonização, pois, neste período muitos países colonizados lutavam pela libertação nacional,
Ele rejeitou o foco ontogenético de Freud no complexo de édipo, e propôs uma perspectiva de sociogenética, enfatizando a importância de factores culturais e sociológicos do comportamento (Fanon citado por Holdstock, 2000).
Em Freud, o complexo de Édipo é o núcleo constitucional da subjectividade. Foi neste núcleo que Freud estabeleceu o elo para sua analogia entre o desenvolvimento da libido individual e o desenvolvimento civilização do indivíduo, realizando uma extensão da psicologia individual à psicologia das massas.

Fanon também discordou com a concepção da inconsciência colectiva de Jung, discutindo que esta era uma questão filogenética de disposições herdadas, afirmando que a inconsciência colectiva, recorrendo ou não aos genes, é pura e simplesmente a soma de preconceitos, mitos, atitudes colectivas de um determinado grupo. (Fanon citado por Holdstock).  
A inconsciência colectiva de Jung: segundo Jung citado por Modelli (2009), o inconsciente colectivo, possuía sentimentos, pensamentos e recordações que condicionavam cada sujeito (desde seu nascimento), inclusive, em sua forma de simbolizar os sonhos. Ou seja, o modo preferencial de uma pessoa reagir ao mundo deve-se dentre outras, a herança genética, as influências familiares e as experiências que o indivíduo teve ao longo de sua vida.
A sociogénese de Fanon poderá sugerir uma afinidade mais íntima a Adler do que a do Freud e Jung. Porém, ele não está totalmente de acordo com Adler. Embora a psicologia de Adler considera factores socio-patogénicos no desenvolvimento de problemas de saúde mental, a sua psicologia continua centrada na dinâmica de egos distintos dentro da família, sem incorporar a família num contexto socio-histórico e cultural.
De acordo com Fanon, os objectivos supremos da psicologia e psiquiatria são a explicação da relação entre a psique (alma) e a estrutura social, a reabilitação dos alienados , e a transformação das estruturas sociais que contrariam as necessidades humanas (Bulhan, citado por Holdstock, 2000).

2.2.   A Colonização da Psicologia em África
Os poetas e escritores de África, a voz da comunidade psicológica nas suposições ideológicas da disciplina, foram relativamente emudecidos. A razão mais óbvia é o facto de a Psicologia ter sido importada como um produto já feito do Ocidente. Como disse Akin-Ogundeji (1991) citado por Holdstock (2000:144), “A história da Psicologia em África é em grande parte a história do colonialismo.”
O debate sobre as regras e a orientação da Psicologia nas sociedades africanas ocorreu dentro de constrangimentos de paradigmas contemporâneos. Akin-Ogundeji (1991) lamenta o facto de a Psicologia em grande parte dos países de África (Nigéria) cingir-se ainda em pesquisas de sala de aula, principalmente interessada com os rigores de trabalho empírico, que são de pouca relevância prática para os problemas da vida na sociedade contemporânea. Os relatórios de pesquisa são muito “artificiais”, "seco", "sem sentido", ou "irrelevantes" e para serem significantes Akin-Ogundeji clama por fundamento da Psicologia africana dentro das realidades sócio-culturais e das experiências humanas na África.
Nsamenang citado por Holdstock (2000), diz que a Psicologia de natureza Eurocêntrica importada para África é questionável quanto a sua relevância para o continente Áfricano. Os métodos de pesquisa convencionais são incapazes de acessar e avaliar as perspectivas do desenvolvimento do africano. Ele problematiza a importância da cultura no desenvolvimento, e defende a contextualização no sentido de se ter uma compreensão do desenvolvimento humano em África. As metodologias de pesquisa precisam ser contextualizadas, as ferramentas de avaliação têm que ser sensíveis à cultura.  
Na altura do Apartheid, na Àfrica do Sul verificaram-se divergências de opiniões quanto ao modo de exercício da Psicologia. Um grupo (o grupo dominante-brancos) defendia o uso do estado actual psicológico como ponto de partida. Outro grupo (negros) clamava por uma revisão do estado actual da Psicologia. Os que aderiam à manutenção do estado actual da Psicologia (o grupo dominante) descreveram-se como “progressivos”, “liberais”, e “políticos”. São indivíduos deste grupo que na maioria dos casos administrou psicologia nos moldes tradicionais (psicologia ocidental), e que foram acríticos sobre as políticas da disciplina durante a era de apartheid.

3.      Rumo a uma Visão Mundial Africana  
Em África, holismo é uma experiência vivida. Existe a convicção de que tudo deve permanecer junto, o que é traduzido directamente no quotidiano.
De acordo com a InfoEscola (2008), o holismo (grego holos, todo) é a ideia de que as propriedades de um sistema, quer se trate de seres humanos ou outros organismos, não podem ser explicadas apenas pela soma de seus componentes. Isto é, é uma maneira de ver o mundo, o Homem e a vida em si como entidades únicas, completas e intimamente associadas.
Kruger citado por Holdstock (2000), descreve a visão geral dos curandeiros indígenas sul africanos, expressando bem o holismo em África. Ele afirma que os curandeiros indígenas moram num mundo não dividido no qual animais, plantas, humanos, sonhos, e antepassados, todos juntos formam um pedaço.  
Podem ser citados exemplos que demonstram a operação de consciência única na África. Por exemplo, dentro da esfera de relações interpessoais, as pessoas são consideras doentes se alguém que estiver perto delas estiver doente. Os gémeos são considerados como sendo uma única entidade e não como indivíduos separados. Não se dirige a um gémeo como um ser único, mas sim como parte integrante do outro. Na morte de um gémeo, o sobrevivente simbolicamente desce para a sepultura durante a cerimónia de enterro.  

3.1.   A Religião, a Força Vital e o Conceito da Divindade  
Os africanos são altamente religiosos, não necessariamente no senso de participação de igreja ou aderência a um dogma religioso específico, mas no senso de honrar o que representa uma preocupação da humanidade.
Para Mbiti citado por Holdstock (2000) as ideias sobre Deus para os grupos africanos, é expresso em milhares de nomes, tendo em consideração quatro categorias gerais: o que Deus faz, as imagens de Deus, a natureza de Deus, e a relação com Deus.  
É diferente o modo pelo qual os ocidentais confiam nas suas habilidades para dominar todos os problemas, incluindo um ao outro, a natureza, e o universo. Se restringindo para o observável e a para o racional, falta à ciência Ocidental a habilidade e perspectiva para compreender a realidade africana.   
Descrevendo psicologia africana, Parrinder (1969) citado por Holdstock (2000:167) afirma que “o Homem não é só um indivíduo, ou somente um ser social; ele é uma força vital que continua em contacto com outras forças. Ele as influencia, mas elas também o influenciam constantemente”. A força vital está dentro de todos os homens e criaturas, formando um laço entre eles.
Mphalele (1984) citado por Holdstock (2000:168) afirma que “nós todos somos os dedos da mesma mão, que é Deus. Cada dedo é diferente do outro, contudo a força da mão será achada dentro da acção coordenada dos seus diferentes componentes.” O ser humano não é só uma força vital, mas uma força vital em participação.  
Das participações vitais, nenhuma é mais importante que a relação com os antepassados, porque os antepassados são os intermediários entre a vida e a morte (Ikenga-Metuh citado por Holdstock, 2000). Os antepassados são frequentemente chamados mortos-vivos, uma indicação de que a demarcação entre vida e morte na África não é tão definitivo quanto no Ocidente.
A existência e a presença dos antepassados não são interrogadas na Africa. Um mundo sem eles não é possível. Isto é igualmente verdade tanto para as pessoas nas zonas rurais, como para as pessoas de zona urbana. Até mesmo africanos que pertencem as igrejas Cristãs integraram a sua convicção nos antepassados com a noção Cristã do Espírito Santo.
Sem a constante intervenção e proximidade dos antepassados não haverá um futuro feliz.
Quando o respeito à memória do defunto é pago através de cerimonias apropriadas, os antepassados, em geral, são vistos como guardiães benevolentes, capazes de interceder em nome das pessoas vivas. É por isso que os africanos estão dispostos a comprometerem-se com certas obrigações requeridas pelo morto. (Murray, citado por Holdstock, 2000).


3.2.   A Dimensão Interpessoal 
Os Africanos sempre estiveram mais interessados em relações humanas do que em lugares ou coisas, pois eles não têm contudo, qualquer grau significante. Pessoas propõem mais prazer, do que lugares (Mphahlele citado por Holdstock, 2000).
A expressão ubuntu, é um conceito que carrega a ideia de força baseado nas qualidades de compaixão, cuidado, bondade, respeito, e empatia. Uma pessoa sem ubuntu é considerada como alguém digno de piedade ou desprezo.
Conceitos ocidentais que provêem a aproximação mais íntima a ubuntu são empatia, compaixão, e consideração de positivo incondicional (Holdstock, citado por Holdstock, 2000). Infelizmente, em psicologia, foram associadas empatia e consideração positiva ao comportamento terapêutico profissional efectivo onde estas atitudes vão surgir em troca de recompensa financeira, do que surgir como componentes básicos de relações interpessoais quotidianas. Na realidade, as condições que Rogers (1951) descreve como necessárias e suficientes para psicoterapia efectiva, é parte e pacote da psicologia do povo de África. Os ocidentais que tiveram a oportunidade de participar ou observar a sociedade africana ficaram surpresos devido a capacidade que os africanos têm de falar uns com os outros, pelo simples facto de gostarem da companhia um do outro.  
 A intimidade dos africanos não é restringida para os amigos mais próximos, mas sim a um grupo inteiro de pessoas que vêm juntas do trabalho ou que estão num convívio. Sendo assim, eles  compartilham os seus segredos, alegrias, e aflições; ninguém se sente intruso no assunto do outro. Pelo contrário, é bem-vinda a curiosidade, surgindo deste modo um desejo para compartilhar.
A aproximação dos africanos nas suas relações interpessoais contrasta com a necessidade da privacidade que os ocidentais têm. A consciência africana tenta recapturar algum do senso tradicional de comunidade onde os homens e mulheres são juntamente envolvidos na especulação de uma resposta para os diversos problemas da vida.
Há bebés que dormem pacificamente nas costas da mãe durante o mais enérgico de danças cerimoniais ou sentando no colo dela enquanto esta bate os tambores durante alguma ocasião festiva ou cerimonial.  
Embora existam biberões na comunidade africana, normalmente as crianças são amamentadas através do seio da mãe. Logo ao nascer, as crianças dormem com as suas mães e são carregadas nas suas costas, por outros adultos, por irmãos ou irmãs. Isto assegura um maior contacto físico durante os primeiros anos, em contraste com bebés europeus que logo a nascença são colocados em camas/berços ou transportados em cadeirinhas apropriadas. A forma como o bebé é embrulhado quando está nas costas da mãe, como é segurado ao ser alimentado, sugere que é provável que influencie no desenvolvimento do cérebro da criança, isto é, a proximidade entre da criança com o corpo da mãe, certamente vai ter um efeito no desenvolvimento de confiança implícita na criança.
Esta confiança do africano tem implicações directas para saúde mental como também para a expressão artística.

4.      O Romanticíssimo na Psicologia
4.1.   A Dimensão Estética dos Africanos
Apesar de a preferência estética e a criatividade constituirem um aspecto complexo da cognição e do comportamento consciente, estes não são dados a devida atenção em psicologia. De acordo com Hillman citado por Holdstock (2000), esta negligência pode ser atribuída à falta de sensibilidade estética na psicologia em geral.
Hillman citado por Holdstock (2000) clama por uma psicologia que tem a sua base na imaginação das pessoas mais do que nas suas estatísticas e diagnósticos. No estudo de casos clínicos, ele quer que seja aplicada uma mente poética e não científica. De todos males da psicologia, Hillman considera a negligência da beleza a mais grave. A Psicologia tem que encontrar o caminho para a beleza se manter viva, a beleza é a cura para males psicológicos. Ele afirma que a Psicologia precisa encontrar também o apoio inesperado do trabalho de neurocientistas nos quais eles elucidam a sobrevivente e evolucionária importância das estéticas.
Neste sentido, é importante que o foco tradicional na análise de objectos estéticos e das idéias fixadas em obras de arte seja substituído por uma aproximação mais dinâmica para a arte na qual o foco é trocado rumo à análise do comportamento estético. Siegfried citado por Holdstock, 2000). Embora o estudo do comportamento estético tenha sido negligenciado na psicologia, tem que se ter cuidado em não cometer o mesmo erro no desenvolvimento de uma psicologia Africentrica, especialmente desde que a dimensão estética constitua um aspecto importante da vida em África.  
A arte compromete a pessoa à comunidade. Esta talvez é a razão pela qual as crianças ainda pequenas, são expostas à canções, a música, e as danças da comunidade. Tonder (1987) citado por Holdstock (2000:184) exemplifica que “A mãe africana canta para o seu filho e expõe-lhe a diversos aspectos da música desde a tenra idade. Ela treina a criança para se dar conta do ritmo e do movimento balançando-a à música, cantando para ela imitando ritmos de tambor”. Desde cedo as mães dançam com bebês nas costas e batem os tambores com elas ao colo. As crianças adquirem habilidades artísticas e de dança com a mesma facilidade que aprendem caminhar e falar.  
O rítmo é o arquiteto do ser, é a mais pura expressão de força da vida em África. O rítmo provê a dinâmica interna, a qual estrutura a fala, música, dança, poesia, teatro, e o desempenho atlético. Sem o rítimo, o africano torna-se um barco que vagueia no mar da vida. O rítmo traz o propósito e o significado, aumenta a compreensão e o senso de ser; une o indivíduo com a força cósmica; ergue os espíritos, e assim, cura. Está é a base das técnicas usadas por curandeiros indígenas para alcançar estados alterados de consciência, habilitando-os ao divino e a cura.  

4.2.   Ritmo na Poesia, Música, Movimento e no Teatro  
De acordo com Senghor citado por Holdstock (2000), não há nenhuma diferença fundamental entre prosa e poesia em literatura africana. Para Senghor o poema não estará completo a menos que seja cantado ou dado um acompanhamento musical. Porém, até mesmo sem canção, poesia é música.
De acordo com Nketia (1974) citado por Holdstock (2000:188) as culturas musicais das sociedades africanas entre o norte islâmico e o europeu sul, “formam uma rede de tradições distintas contudo relacionadas, as quais sobrepõem-se em certos aspectos de estilo, prática, ou uso, e partilham características comuns de padrão interno, procedimento básico, e similaridades contextuais. Estas tradições musicais relacionadas constituem uma família distinta das do ocidente ou do oriente”. Porém, até mesmo no sul, a atitude hostil dos missionários para música africana, especialmente para o tocar do tambor, o qual era associado a práticas pagãs, e depois, a exclusão de músicos tradicionais e a sua música de instituições educacionais, sem querer assegurou a continuidade de música tradicional em sua forma original.  
A música na cultura africana caracteriza por estados emocionais. Ela não só serve como um meio de comunicação interpessoal, mas também liga a vivência com os antepassados e ambos com a divindade. Nas sociedades africanas, a música é a comida da vida em um sentido literal, é geralmente compreendida como uma experiência humana que incorpora dança e poesia.
De acordo com o Warren e Senghor citado por Holdstock (2000) a repetição é a essência de ritmo africano. Para Senghor manter a repetição provê a força unificada necessária que permite o tocar ou a escuta de complexas improvisações polirítmicas, sem que a forma básica seja perturbada.
Na cultura tradicional africana, a dança serve para uma multiplicidade de funções. A dança une todos os aspectos do indivíduo: corpo, emoção, espírito, e razão em um todo transcendente, e por outro lado, une o dançarino a todo o mundo de viver e dos defuntos. Dançar tem uma função importante na socialização de rapazes e meninas em termos de valores do grupo a que pertencem e de manter esses valores entre adultos. Em danças de guerreiro há uma relação espiritual forte entre vida e morte.  
Uma característica muito distintiva da dança africana é a sua relação à terra. Nas formas de dança Ocidentais os movimentos são claros e passageiros. Os dançarinos se esforçam para flutuar ligeiramente do chão o quanto possível. A dança africana, pelo contrário, fica perto do chão. Se são executados saltos o propósito é sempre voltar para o chão e não quebrar o contacto com mãe terra. Curandeiros indígenas dançam descalços. Dançar com sapatos é um sinal de que o curandeiro perdeu o contacto com os antepassados.
O rítmo faz parte do teatro africano e arte uma vez que é acompanhado de música, dança, poesia e movimento.   
5.      Conclusão 
A dimensão holistica do modo de estar em África tem uma grande transação para contribuir à maneira na qual nós nos aproximamos e geralmente administramos psicologia no continente africano. Enfatiza-se o facto de que o ser humano precisa de ser considerado como sendo um todo. Em termos africanos, não somos apenas racionais, mas também afectuosos.
A Psicologia africana avalia a dimensão espiritual como também assuntos mundanos do dia a dia. Os conceitos de espírito e alma estão relacionados. 
O conceito “ubuntu” em África, incorpora as três condições que Rogers considerou ser necessário e suficiente para uma psicoterapia. Além disso, “ubuntu” considera a implemetação das considerações de Rogers no comportamento quotidiano da pessoa.    
A visão que o mundo tem de Africa reforça a noção expressa em psicologia cultural que o indivíduo não pode ser estudado isoladamente do seu contexto histórico, social, e geográfico. O desafio para a psicologia não é apenas ajudar os indivíduos problemáticos a resolver as suas dificuldades quotidianas, mas também procurar investigar a estrutura e a natureza da sociedade onde o indivíduo está inserido.  
 
Questões ligadas a saúde mental diferem segundo as orientações culturais de cada sociedade, e precisam ser respeitadas, tornando-as parte da psicologia clinica.  
6.      Bibliografia
Holdstock, T. L. (2000). Re-examining Psychology – Critical perspectives and African insights. USA/Canada: Routledge.
InfoEscola (2008). Holismo. Disponível a 27 de Março de 2010 em http://www.infoescola.com/filosofia/holismo-holistico/
Modelli, N. (2009). Os tipos psicológicos de Carl Jung. Disponível a 27 de Março de 2010 em http://nairamodelli.wordpress.com/2009/06/15/os-tipos-psicologicos-de-carl-jung/


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