ELIAS RICARDO SANDE

ELIAS RICARDO SANDE
PSICOLOGO SOCIAL E DAS ORGANIZACOES

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Gravidez na Adolescencia: Um estudo fenomenologico

INTRODUÇÃO
Do ponto de vista do mundo científico, a adolescência é caracterizada como uma fase da vida em que o adolescente é um ser em desenvolvimento e em conflito, pois atravessa uma crise que se manifesta em mudanças físicas, e conflitos familiares. Esta fase, ele é considerado como indevido maduro ou adulto bem adaptado à estrutura da sociedade.
Para Goldenstein (1995) citado por Velasco (1998), a adolescência é uma palavra mágica, complicada, pois pode significar tanto uma forma de crescimento como insatisfação e ansiedade. Ao exercer sua sexualidade, a adolescente pode ser surpreendida com uma gravidez, e esse facto tem levado a sociedade a reflectir sobre a percepção que a adolescente tem do risco de uma gravidez, partindo da visão de que ela ainda está no processo de desenvolvimento corporal, mental e emocional, que atinge todas as classes sociais.
Assim, a gravidez, na adolescência, tem sido considerada por alguns autores como um dos maiores problemas da Saúde Pública, devido ao alto índice de gestações nesta faixa etária. De acordo com Becker (1996) citado por Velasco (1998), a nível mundial, cerca de 16,94% dos nascidos vivos e registados são filhos de mães entre 12 e 19 anos, o que segundo o autor, é um número considerável de adolescentes grávidas em quase todas sociedades.
O presente estudo, poderá representar um esforço dos problemas no seio dos adolescentes, como a gravidez indesejada que dá origem à desistência por parte de muitas alunas no decorrer do ano lectivo, bem como a morte pela prática do aborto. A base deste trabalho será uma investigação bibliográfica e do campo, tal como a Escola Comunitária Santo António da Malhangalene onde serão recolhidos os dados para análise. O estudo em curso constituirá uma reflexão sobre o desafio dos professores, dos alunos nas escolas e dos pais na problemática da gravidez precoce.
 
 
 
1. Problematização
As adolescentes no processo de auto-descoberta e na procura de identidade, descobrem a sexualidade. Porém, ao exercer sua sexualidade, estas podem ser surpreendidas por uma gravidez indesejada, e como consequência, a maior parte delas abandonam a escola ou em outros casos, mudam de turno (diurno para nocturno), assim como a morte destas pela prática do aborto, pois o seu organismo não está biologicamente preparado. Esse facto tem levado aos cientista, políticos, especialistas, professores, escolas, comunidades e a sociedade em geral a reflectir sobre a necessidade de prevenção da gravidez precoce e ouvir a percepção que as adolescentes têm do risco de uma gravidez não planeada, partindo da visão de que ela ainda está no processo de desenvolvimento corporal, mental e emocional, para ser mãe. Assim, a gravidez, na adolescência, é considerada por alguns autores como um dos maiores problemas da sociedade. Nesse sentido, é fundamental deixar a seguinte questão:
Que implicações psico-sociais pode ter uma gravidez precoce?

1.1. Justificativa
A escolha do presente tema deve-se ao facto da autora ter presenciado mais de 04 casos de gravidez precoce na sua família e pelo facto de muitos autores como o caso de Mitano (2009), defenderem que há falta de informação á nível das escolas e das comunidades sobre o assunto.
 
1.2. Objectivos
a) Objectivo Geral
" Compreender as implicações da gravidez precoce na adolescência, principalmente nas escolas.
 
b) Objectivos Específicos" Identificar as causas da gravidez precoce;
" Perceber os factores culturais ligados à gravidez precoce; e
" Sugerir medidas preventivas da gravidez precoce.
 

1.3. Hipóteses
" A gravidez precoce tem sido a principal causa da desistência escolar e mudança de turno em alunas do ensino secundário do primeiro ciclo.
" A desistência escolar e a mudança de turno não se devem à gravidez precoce nas alunas do ensino secundário do primeiro ciclo.
 
 
2. Revisão da Literatura
2.1. Contextualização
A gravidez precoce é uma das ocorrências mais preocupantes relacionadas à sexualidade da adolescência, com sérias consequências para a vida dos adolescentes envolvidos, das suas famílias e dos seus futuros filhos. A incidência de gravidez na adolescência está crescendo e, nos EUA, as estatísticas, mostram que a percentagem dos nascimentos de adolescentes grávidas e solteiras é de 74,4%.
No Brasil a cada ano, cerca de 20% das crianças que nascem são filhas de adolescentes, número que representa três vezes mais adolescentes com menos de 15 anos grávidas que na década de 70, engravidam hoje em dia. Alguns estudos mostram que em África as relações sexuais iniciam entre 11 e 12 anos de idade, fazendo com que muitos adolescentes engravidem antes de atingir a idade adulta.
Em Moçambique verifica-se uma sexualidade muito alta com 75% de adolescentes sexualmente activos, alta frequência de gravidez na adolescência dos 14 à 17 anos de idade, 37% das raparigas experimentaram uma gravidez e 17% dos rapazes tem consciência de ter engravidado uma rapariga, segundo o mesmo relatório há uma alta incidência de abortos de risco, 50% das adolescentes grávidas aborta e 79% desses abortos foram provocados ou induzidos (MISAU, 2005).
 
2.2. Definição de Conceitos

A gravidez precoce é aquela que ocorre em adolescentes, a partir da puberdade, começa o processo de alterações físicas que fazem da rapariga uma mulher com capacidade para a reprodução sexual. Não significa, porém, que a ela esteja preparada para ser mãe.
A adolescência é um período de vida que merece atenção, pois esta transição entre a infância e a idade adulta pode resultar ou não em problemas futuros para o desenvolvimento de um determinado indivíduo. No entanto, para entender como a adolescência pode favorecer o aparecimento de problemas como a gravidez precoce, entre outros, é necessária uma breve revisão sobre este período.
A palavra adolescência vem do latim adolescere que significa tornar-se homem/mulher ou crescer na maturidade, sendo que somente a partir do final do século XIX foi vista como uma etapa distinta do desenvolvimento (Almeida, 2003). Actualmente, a adolescência se caracteriza como uma fase que ocorre entre a infância e a idade adulta, na qual há muitas transformações tanto físicas como psicológicas, possibilitando o surgimento de comportamentos irreverentes e desafiantes com os outros, o questionamento dos modelos e padrões infantis que são necessários ao próprio crescimento (Almeida, 2003).
 
2.3. Sexualidade na Adolescência

De acordo com MISAU (2005), a adolescência compreende um período entre os 11 e 19 anos de idade, desencadeado por mudanças corporais e fisiológicas advindas da maturação fisiológica. O sexo é uma das fontes de satisfação e prazer para o ser humano e é também uma forma que as pessoas encontram para demonstrar carinho e afecto para com a pessoa amada.

Na adolescência as sensações físicas e os sentimentos são muito intensos. Especificamente na adolescência, surgem agressivamente os impulsos sexuais, devido à produção das hormonas sexuais e o desenvolvimento dos órgãos sexuais, trazendo o prazer à jovem adolescente (Mielnik, 1984).
Segundo Velasco (1998), nas sociedades moçambicanas, muitas adolescentes passaram a ter vida sexual activa de forma precoce por vários motivos, algumas pela procura de identidade. Trata-se algumas vezes, de afirmar sua feminilidade, de competir com a mãe, ou então, de ter algo em comum com a mãe; outras vezes, é a vontade de magoar seriamente o pai.
 
Pelo contrário, noutros casos, parece haver necessidade de compensação de carências afectivas, raparigas que antes de engravidar não se sentiam importantes e que procuraram uma identidade, tornando-se alguém desde que passam a ser mãe de alguém. A curiosidade, o desejo de correr riscos ou de agir contra as normas estabelecidas, a cultura, a escola e a sociedade, ou ainda, uma vontade invencível de emancipação, são outras tantas razões (Almeida, 2003).
 
É importante lembrar que a relação sexual na adolescência, é geralmente, um momento muito importante na vida das pessoas. Nesta fase, a adolescente descobre sentimentos muito íntimos, entretanto, esse momento requer responsabilidade quanto às possíveis consequências. Nesse caso, os resultados são o aumento do número de gravidez, do número de abortos e das complicações no parto, além do aumento dos índices de doenças sexualmente transmissíveis (Almeida, 2003).

a) Factores que influenciam o comportamento sexual na adolescência

O comportamento sexual tem como principal função a sobrevivência da espécie, ou seja, é um comportamento biologicamente determinado, encontrando-se social e culturalmente controlado, o que não permite dizer que o comportamento sexual do adolescente é controlado por um único conjunto de procedimentos. A sexualidade do adolescente pode se expressar através da relação heterossexual e/ou homossexual, da masturbação e de fantasias.

De acordo com alguns autores, este comportamento durante a adolescência deve-se às expectativas sociais e à modelação a partir da televisão, filmes e músicas que influenciam o espectador desde a mais tenra idade (Frange, 2008).
A modelação é definida por Bandura como cita Frange (2008), como a aprendizagem vicária de comportamentos, ou seja, através da observação de modelos, pode-se adquirir padrões de respostas autonómicas, motoras e cognitivas, sendo que esses modelos podem ser reais ou simbólicos, tais como personagens de filmes e livros.

Assim, pode-se entender melhor o que acontece no comportamento sexual do adolescente, parece que algumas vezes comportam-se por imitação e não pela modelação, pois muitos comportamentos que emitem, resultam em consequências mais punitivas que reforçadoras, a exemplo a própria gravidez na adolescência (Frange, 2008).
Dessa maneira, talvez os processos de modelação também possam ser utilizados no controle da gravidez na adolescência. Embora em alguns casos, a gravidez possa trazer consequências reforçadoras, como o casamento precoce entre adolescentes, muitas vezes traz consequências punitivas a curto e longo prazo, como o convívio com condições económicas precárias devido ao despreparo social e psicológico dos adolescentes para exercerem a paternidade e o abandono aos estudos (Takiutt, 1986).

Em relação ao comportamento sexual do adolescente, pode-se dizer que filmes, músicas ou novelas actuam como estímulo para que o adolescente inicie precocemente sua vida sexual, obtendo como reforço imediato o prazer de experimentar tal situação.
Assim, o comportamento sexual do adolescente pode ser visto como sendo mais um produto de contingências ambientais do que meramente um efeito derivado de mudanças hormonais, pois é no ambiente que se pode encontrar as condições que favoreçam a sua manifestação.
 
2.4. Gravidez Precoce

Na visão de Guimarães (2004), não se pode descrever a adolescência como simples adaptação às transformações corporais, mas como um importante período no ciclo existencial da pessoa, uma tomada de posição social, familiar, sexual e entre o grupo. A puberdade, que marca o início da vida reprodutiva da mulher, é caracterizada pelas mudanças fisiológicas, corporais e psicológicas da adolescência. Uma gravidez na adolescência provocaria mudanças maiores ainda na transformação que já vinha ocorrendo de forma natural.
Neste caso, muitas vezes a adolescente precisaria de um apoio da família para saber lidar com esta nova situação. A utilização de métodos anticoncepcionais não ocorre de modo eficaz na adolescência, inclusive devido a factores psicológicos inerentes ao período da adolescência. A adolescente nega a possibilidade de engravidar.
A actividade sexual da adolescente é, geralmente, eventual, justificando para muitas a falta de uso rotineiro de anticoncepcionais. A maioria delas não assume diante da família a sua sexualidade, nem a posse dos anti-concepcionais, que denuncia uma vida sexual activa. Assim sendo, além da falta ou má utilização de meios anti-concepcionais, a gravidez e o risco de engravidar na adolescente podem estar associados à um funcionamento familiar inadequado, à baixa qualidade de seu tempo livre (Guimarães, 2004).

Guimarães (2004), defende que com a gravidez, a mulher, encontra a maneira para definir-se e identificar-se, através dela, é que se confirma a potencialidade da mulher permitindo a continuidade da família e a criação de algo próprio. Dessa forma, pode-se dizer que a gravidez representa um período importante e de muitos significados. Por essa razão, a gravidez na adolescência causa preocupações à sociedade, pois as jovens muitas vezes encontram-se despreparadas para enfrentar o mercado de trabalho, o que pode torná-las marginalizadas agravando o quadro de pobreza do país.
No entender de Guimarães (2004), a gravidez é um período de vida da mulher, no qual ocorrem profundas transformações endócrinas, somáticas e psicológicas que repercutem na sua vida, o que de acordo com alguns autores, favorece o agravamento da crise comum a ambas as fases do seu desenvolvimento, pois alegam que gravidez e adolescência são períodos críticos de vida.
Em Moçambique, onde a adolescência possui diferentes configurações, por exemplo, uma jovem de classe baixa que engravida encontra maiores dificuldades devido as suas condições sócio - económicas precárias e à falta de apoio, muitas vezes, da própria família e do parceiro (MISAU, 2005).
Nesse contexto, é interessante que as escolas, enfatizem a educação sexual para os jovens, esclarecendo suas dúvidas e lhes oferecendo toda orientação a respeito do assunto. Geralmente, a gravidez precoce ocorre sem que os pais adolescentes assumam a responsabilidade sobre a decisão de ter ou não o bebé, um outro inconveniente da gravidez durante a adolescência, diz respeito às funções fisiológicas, ou seja, as adolescentes representam um grupo de alto risco obstétrico, pois apresentam um elevado nível de complicações quando comparadas às demais, além de favorecer o nascimento de bebés prematuros ou quando a mãe possui idade inferior a 13 anos, tem duas vezes e meia a mais possibilidade de gerar um bebé com baixo peso (Frange, 2008).

Acredita-se, actualmente que os riscos da gravidez durante a adolescência seja mais determinado por factores psicossociais relacionados ao ciclo da pobreza e educação existente, e fundamentalmente, a falta de perspectivas na vida dessas jovens sem escola, saúde, cultura, lazer e emprego; para elas, a gravidez pode representar a única maneira de modificarem seu status na vida. Sabe-se que em sociedades pré-industrializadas, a actividade sexual e consequentemente a gravidez são fenómenos seguidos. Mais uma vez pode-se notar o impacto do ambiente na gravidez durante a adolescência e que esta depende de variáveis culturais, sociais e individuais presentes em cada comunidade (MISAU, 2005).
 
3.5. Factores de Risco da Gravidez Precoce
a) Variáveis Culturais da Gravidez Precoce

Skinner (1990) citado por Frange (2008), argumenta que o comportamento de um organismo é um produto de três tipos de variação e selecção, que são: a selecção natural, o condicionamento operante e a cultura. As culturas, em geral, possuem as funções dos meios sociais, como oferecer modelos, dizer e ensinar; através delas seus membros solucionam os próprios problemas. A cultura é o próprio ambiente social que exerce controlo sobre o comportamento do grupo que a pratica.
De acordo com Frange (2008), as adolescentes que engravidam percebem a família como pouco unidas, com baixo nível de comunicação entre seus membros e normalmente, os pais não vivem juntos, acarretando baixa renda familiar. Geralmente filhas de pais separados ou solteiros possuem maior probabilidade para engravidarem durante a adolescência, atribuindo tal facto à ausência do pai na família.
 
b) Variáveis Comportamentais da Gravidez Precoce

Devido a todas transformações psicológicas, fisiológicas e sociais que ocorrem durante a adolescência, é muito comum que os adolescentes exibam alguns comportamentos de risco, tais como: fumar, usar drogas e/ou álcool, manter relações sexuais sem nenhuma medida contraceptiva (Frange, 2008). Assim, a gravidez na adolescência pode ser considerada uma consequência da emissão de um comportamento de risco da adolescente, como manter relações sexuais sem medidas contraceptivas, utilizá-las inadequadamente ou iniciar precocemente a actividade sexual.
Segundo o autor, muitos são factores que levam ou podem levar aos riscos causais da gravidez na adolescência. Estes factores necessitam, portanto, da aquisição de estilos de vida saudáveis, além de políticas públicas direcionadas a este público, principalmente no que concerne ao sector da saúde e escolar, com profissionais e serviços de qualidade, preparados para acolher esta clientela. A privação de informações pela falta de comunicação com os pais e/ou a ausência do pai podem ser as operações estabelecedoras do comportamento sexual da maioria dos sujeitos do estudo.
 
3.6. Mecanismos de Prevenção e Combate à gravidez Precoce

Um dos principais instrumentos a ser usado para minimizar os índices de gravidez precoce é a Educação Sexual com adolescentes, esta deve ser feita de modo contínuo e permanente, para que possam ser discutidas, além de informações, novas atitudes nas pessoas, frente a sexualidade colectiva e a sexualidade individual, ela deve ter a característica de partir das dúvidas existentes nas crianças e jovens dos temas mais urgentes, tendo em conta que cada adolescente tem suas particularidades e interesses (Frange, 2008).

Como defende Esteves (2003), não se fala da educação sexual na perspectiva biológica que se preocupa apenas em falar de gravidez, DST ?s, HIV, reprodução, heterossexual idade. Isso também é importante, mas não é suficiente. Segundo esse autor, recomenda-se que é necessário levar os adolescentes a pensarem nas responsabilidades da prática sexual, eles precisam discutir relações de género, ou seja, como as ideias sobre o homem/masculino e a mulher/feminino são construídas na sociedade e, em consequência, como se constitui as diferenças entre ambos.
 
A Educação Sexual nas escolas deveria começar na infância, Não se vai subestimar a capacidade de compreensão das crianças, antes mesmo da puberdade. Já é possível conversar sobre menstruação, gravidez, acto sexual, higiene corporal, relações de género, vida social, namoro, expressão de afecto. As pesquisas revelam que as crianças de hoje sabem muito mais sobre sexualidade do que a nossa geração e a geração de nossos pais sabiam há 30 anos atrás. Portanto essa discussão precisa, necessariamente, perceber como cada mito e cada tabu foram inventados e construídos nas sociedades. Para isso, torna-se indispensável o conhecimento histórico e político da humanidade e das suas instituições sociais como a Igreja, o Estado, as Leis, a média e a Escola (Esteves, 2003).
 
Frange (2008), refere que uma vez constatada a gravidez, se a família da adolescente for capaz de a acolher com harmonia, respeito e colaboração, esta gravidez tem maior probabilidade de ser levada a termo normalmente e sem grandes transtornos. O bem-estar afectivo da adolescente grávida é muito importante para si própria, para o desenvolvimento da gravidez e para a vida do bebé.

A adolescente grávida, principalmente a solteira e não planeada, precisa encarar sua gravidez a partir do valor da vida que nela habita, precisa sentir segurança e apoio necessário para seu conforto afectivo, precisa dispor bastante de um diálogo esclarecedor e, finalmente, da presença constante de amor e solidariedade que a ajude nos altos e baixos momentos emocionais, comuns na gravidez, até o nascimento de seu bebé. Mesmo diante de casamentos ocorridos na adolescência de forma planeada e com gravidez também planeada, por mais preparado que esteja o casal, a adolescente não deixará de enfrentar a somatória das mudanças físicas e psíquicas decorrentes da gravidez e da adolescência.
 
2.6. Implicações da Gravidez Precoce

Na visão de Almeida (2003), a gravidez na adolescência é portanto, um problema que deve ser levado muito a sério. A adolescente grávida podem apresentar casos de ansiedade, depressão, anemia, baixa auto-estima, tendências ao suicídio, isolamento, auto-descriminação. Um outro conjunto de consequências da gravidez precoce segundo Frange (2008) é: alterações corporais, complicações na gravidez e problemas de parto, percurso escolar e profissional comprometido, variabilidade comportamental, e instabilidade emocional.
A gravidez precoce faz com que a pessoa, passe directamente da infância para a fase adulta, sem parar na adolescência que é a fase de maior desenvolvimento, há maior probabilidade de viver uma extrema pobreza, caso a família a rejeite, isso porque muitas vezes a adolescente grávida abandona à escola, tendo por isso um nível de escolaridade precário e, consequentemente terá um emprego precário.
 
METODOLOGIA
 
O presente estudo centrou-se na pesquisa exploratória e descritiva, com levantamento bibliográfico que subsidiou a análise das respostas dadas pelos professores e alunas sobre a questão, e esta permitiu um aprofundamento de conhecimentos teóricos para fundamentar e explicar o fenómeno da gravidez precoce.
 
1. Apresentação da Instituição de Estudo
 
A Escola Comunitária Santo António da Malhangalene, localiza-se na Rua da Resistência, Bairro do Maxaquene, Distrito Municipal ka Maxaquene na Província de Maputo. Segundo reza a história, a Escola pertencia a Comunidade Santo António da Igreja Católica, passada recentemente para o Estado, ou seja, actualmente, é uma Escola Pública.

Segundo dados que me foi facultado pelo Director-Pedagógico, estruturalmente, a Escola é composta por:
" sector pedagógico;
" sector administrativo;
" secretaria;
" sector de informática;
" biblioteca;
" centro de aconselhamento;
" papelaria; e
" cantina.
 
A Escola possui 12 salas, 36 turmas, perfazendo 03 turnos (manha, tarde e noite), 1193 alunos do curso diurno e 636 do curso nocturno, perfazendo um total de 1829 alunos e um total de 27 professores. Dados avançados a meu favor pela mesma fonte, conferem o registo de 04 casos de gravidez precoce ao longo do ano lectivo de 2011, sendo que a medida tomada, de acordo com o regulamento interno da escola, passaram do curso diurno para nocturno. As adolescentes grávidas foram encaminhadas para o centro de acompanhamento psicológico interno e, convocou-se os encarregados de educação para tomarem conhecimento e juntos procuraram formas de resolução do problema.

2. Amostra

Participaram no estudo 12 pessoas
 
3. Instrumentos de Recolha da Dados

A informação foi colhida através de entrevistas semi-estruturadas que continham perguntas que exigiam respostas semi-abertas e, se caracteriza como dados qualitativos, pois fornecem informações subjectivas e opiniões pessoais e, consequentemente são sujeitos à uma análise também qualitativa. As entrevistas eram de dois tipos: Um para os professores e outro para as adolescentes, sendo que ambos tipos tinham perguntas relacionadas.
 
4. Procedimento

Esses instrumentos foram submetidos à 12 participantes da Escola Comunitária Santo António da Malhangalene, sendo que 04 foram alunas adolescentes seleccionadas por estarem na situação de gravidez precoce, 03 escolhidas aleatoriamente, e 05 professores que fazem parte da direcção da Escola, indicados pelo Director Pedagógico para prestar entrevista. No final fez-se uma profunda análise sobre o tema, onde deixou-se ficar sugestão pessoal da autora. Antes de responderem, os participantes foram devidamente explicados acerca dos objectivos do estudo e de todos os procedimentos a seguir no preenchimento do questionário. Pediu-se a sinseridade dos mesmos pois, foram-lhes garantidos o singilo de toda informação. Os sujeitos tinham em média 10 minutos para responder as questões.
 
 
 
RESULTADOS
1. Apresentação dos Resultados
 
Das entrevistas feitas, colheu-se os seguintes dados:
Dos 100% entrevistados, 80% alegaram a falta de informação por parte dos adolescentes, desses, 75% alegaram que essa falta de informação está associada a falta de educação sexual tanto nas escolas quanto a nível das famílias. 60% defenderam que a gravidez precoce pode levar à graves problemas para a vítima e até morte; 40% culpabilizaram as próprias adolescentes como sendo as responsáveis pelo acto. 50% dos professores  entrevistados apontaram que a gravidez em si só é positiva e necessária para a manutenção da espécie humana, porém, a gravidez na adolescência é negativo, pois em muitos casos, ao invés de gerar filho, gera problemas que prejudicam a própria adolescente.
Segundo dados colhidos das alunas que já viveram ou vivem uma situação de gravidez, 60% alegaram não haver informação suficiente em relação à Educação Sexual e há falta de diálogo no seio familiar em relação à sexualidade. Os pais não dialogam com os filhos acerca da vida sexual, tornando isso como tabu. 81% das adolescentes entrevistadas que nunca experimentaram uma situação de gravidez, defenderam a falta do conhecimento como o motivo principal da gravidez precoce e falta de programas nos currículos escolares de natureza sexual que permitiria a aquisição do conhecimento sobre a sexualidade.
Cita-se abaixo alguns depoimentos das alunas entrevistadas:
Meus pais nunca falaram comigo a cerca do sexo, eu comecei a ver na novela, quando perguntava minha mãe, dizia que é assunto de pessoas grandes (adolescente de 16 anos)
eu não sabia que fazer sexo termina na gravidez, porque ninguém me ensinou, nem mesmo na escola, não falam sobre isso (adolescente grávida de 16 anos)
 
 
DISCUSSÃO
1. Análise dos Resultados

De acordo com a informação colhida, a escola onde foi feito o estudo não possui um programa específico para lidar com casos de gravidez precoce, porém, o Director-Pedagógico referiu que existe, nesse estabelecimento de ensino, uma disciplina chamada Moral Cívica, onde os alunos aprendem as várias formas de prevenir HIV/SIDA, DTS, gravidez precoce e outros males que afecta essa faixa etária. Segundo ele, apesar disso, algumas adolescentes não tem levado isso a sério e, acabam por ficar grávidas. Segundo essa perspectiva, verifica-se uma tentativa de culpabilizar as próprias adolescentes pela gravidez. Essa visão contrasta com os dados colhidos na literatura como o caso de Mitano (2009), defender que o elevado índice de gravidez precoce deve-se em maior escala a falta de uma educação sexual eficaz.
 
No decurso das entrevistas verificou-se que sobre o assunto, não há uma percepção diferenciada entre as adolescentes entrevistadas, mesmo as que já viveram ou as que se encontram na situação de gravidez precoce, quanto as que não se encontra nessa situação, todas defendem a falta de informação ou educação-sexual, quer em casa, quer na escola, como causa principal. É essa visão que é defendida por muitos autores.

30% dos professores inquiridos defenderam a falta de maturação psicológica das adolescentes como sendo uma das causas da gravidez precoce é, ou seja, as adolescentes não têm em mente as consequências de uma relação sexual, e a incapacidade de percepção do risco que se corre numa vida sexual. Entretanto, aceitam a problemática da falta de informação, principalmente em casa e nas famílias, pois é lá onde existem os primeiros ensinamentos. Esse pensamento também é defendido por alguns autores, pois segundo segundo Velasco (1998), nas sociedades moçambicanas, muitas adolescentes passaram a ter vida sexual activa de forma precoce por vários motivos, algumas pela falta de maaturação psicológica e algumas pela procura de identidade. Trata-se algumas vezes, de afirmar sua feminilidade, de competir com a mãe, ou então, de ter algo em comum com a mãe; outras vezes, é a vontade de magoar seriamente o pai; essa atitude da adolescente é feita sem nenhuma reflexão sobre as possíveis consequências desse comportamento.

Os dados apurados, apontaram que quanto mais precoce ocorrer a gravidez, mais prejuízo ela trará para a adolescente e quanto para o bebé, diminuindo as perspectivas de futuro de ambos. Essa visão, encontra encondramento com os estudos feito por Almeida (2003) e Frange (2008), que defendem que a adolescente grávida pode apresentar casos de ansiedade, depressão, anemia, baixa auto-estima, tendências ao suicídio, isolamento, auto-descriminação, bem como alterações corporais, complicações na gravidez e problemas de parto, percurso escolar e profissional comprometido, variabilidade comportamental, e instabilidade emocional.

A gravidez em adolescentes tem aumentado a incidência de complicações, elevando os índices de óbito nesta faixa etária; vale ressaltar que este aumento também é produzido pela tentativa ou realização de aborto clandestino quando estas descobrem que estão numa situação de desespero, Esse pensamento foi apurado aquando do decurso das entrevistas, onde o aborto é considerado como uma das alternativas que a adolescente encontra para solucionar o problema.

Os dados da entrevista, mostram que a vulnerabilidade estar numa situação de gravidez varia em função de muitos factores. Quanto menor for o nível de escolaridade da adolescente e menor for a renda familiar desta, maior é a probabilidade de a adolescente contrair uma gravidez. Essa posição enquadra na visão de Almeida (2003), onde aponta os seguintes pontos de vulnerabilidade associados com a gravidez precoce:
" idade precoce: momento em que a adolescente está descobrindo o mundo e experimenta situações adversas, que a leva a enfrentar maiores riscos, curiosidades, vivências amorosas e de sedução;
" adolescente solteira: o pai quase sempre mais velho, envolve a adolescente a ter uma relação sexual precoce e desprovida de métodos contraceptivos, em seguida, ocorrendo a gravidez o mesmo a deixa;
" adolescente que não estuda: a adolescente que tem baixa escolaridade ou está fora da escola, deixa de ser instruída e fica com mais tempo livre, favorecendo a ocasionalidade;
" adolescente com baixa renda familiar: as famílias que estão na linha da pobreza, são consideradas de risco e tendem a apresentar ou vivenciar problemas de carácter biopsicossocial;
" adolescente que pratica sexo precocemente: o início das actividades sexuais devem cada vez mais ser orientadas para que haja um adiamento, e com isto reduz os riscos para aquisição de DST/AIDS e da gravidez precoce;
" adolescente com gravidezes sucessivas: a adolescente que engravida tem uma tendência a repetir o facto mais vezes neste período caso não seja acompanhada;
" adolescente que não utilizam métodos contraceptivos: esta prática ocorre muitas vezes, primeiro pela falta de conhecimento dos mesmos, segundo, pela falta de acesso e terceiro, pela resistência dos familiares em oferece-las.
 
 
CONCLUSÕES
 
Percebe-se que as principais causas da gravidez é a falta de conhecimento de métodos anti-concepcionais, falta da educação sexual dada às adolescentes faz com que elas não queiram assumir que tem uma vida sexual activa e por isso não usam métodos contraceptivos. Com base dos dados apresentados no MISAU a cada ano cerca de 20% das crianças que nascem são filhos de mães adolescentes. A maior parte destas não têm condições financeiras nem emocionais para assumir a maternidade e, por causa da repreensão familiar, muitas delas fogem de casa e abandonam os estudos.
Segundo o pensamento de Esteves (2003), observa-se que os problemas associados com a gravidez da adolescente concentram-se no aspecto indesejado da gravidez. Se a família da adolescente que engravida for capaz de a acolher, há maior probabilidade de minimizar os riscos da mesma. A adolescente grávida, principalmente a solteira, precisa encarar sua gravidez a partir do valor da vida que nela habita, precisa sentir segurança e apoio necessários para seu conforto afectivo, precisa dispor bastante de um diálogo, de amor e solidariedade que a ajude.
 
Contudo, percebe-se a importância de inserir a educação sexual no currículo escolar, esse problema não é só da escola, é também familiar. A escola enquanto formadora de opiniões, pode dar sua contribuição para amenizar esse problema fazendo um trabalho sistematizado de educação sexual desde o Ensino Primário, e o mais importante, preparar professores para tal missão, favorecendo um ambiente que permita a auto-confiança, o diálogo, o respeito mútuo, a responsabilidade, para que os alunos se sintam a vontade para falar sobre o assunto.
 
O psicólogo enquanto profissional habilitado acerca do comportamento humano (Esteves, 2003), pode desenvolver junto à comunidade e escolas programas de prevenção à gravidez na adolescência, já que os índices deste problema aumentam a cada ano, contribuindo para a marginalização dessa população; o professor enquanto educador muito pode oferecer, no entanto para isso necessita do apoio e investimento dos governantes, e a família, também, é muito importante neste processo, pois de acordo com a literatura, um ambiente familiar coercivo aumenta a probabilidade de problemas como este.

A Educação Sexual nas escolas deve ser conduzida e preparada por alguém que seja da confiança dos adolescentes. Este é um processo lento de conquista. O educador sexual deve ficar ciente que a confiança é a questão principal. Se as adolescentes não se sentirem bem, não se abrirão na discussão e o trabalho ficará limitado. É responsabilidade de qualquer sistema escolar promover a educação integral da criança e do adolescente e, portanto, discutir a sexualidade é uma actividade que já devia estar sendo feita há muito tempo.
 
Não se pode esquecer que ainda existe um tabu muito grande nas famílias, em conversar sobre sexo com adolescentes, prejudicando com isso, a própria adolescente, que também fica constrangida para falar sobre o assunto. É neste caso que entra a escola, através de seus professores e funcionários, deixarem os alunos, desde a infância, bastante a vontade para falar sobre o assunto, tirando dúvidas de forma pertinente e ao mesmo tempo proporcionar a abertura para que o aluno continue a questionar sem nenhum tipo de constrangimento.
                                  
 
LISTA DE REFERÊNCIAS
 
Almeida, J. M. R. (2003). Adolescência e maternidade. 2. ed. São Paulo: Ed. Lisboa.
Esteves, J. R. (2003). Trajetórias de vida: repercussões da maternidade adolescente na biografia de mulheres que vivem tal experiência, São Paulo: UFES
Frange, P. (2008). Gravidez precoce. A voz do vereador Paulo Frange. Disponível em: http://paulofrange.blogspot.com/2009/02/gravidez-precoce.html . Acesso em: 06.10.2011.
Guimarães, E. M. B. (2004). Saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes - um desafio para os profissionais de saúde no município Goiânia. Revista da UFG. Disponívelaem:ahttp://www.proec.ufg.br/revista_ufg/juventude/reprodutiva.html.l  Acesso em: 5. 10.2011
Mielnik, I (1984). Os adolescentes: conceito, dinâmica e orientação do adolescente. São Paulo: IBRASA.
Mitano, F. (2009). Experiências e Percepções sobre Gravidez na Adolescência: Um Estudo Fenomenológico. Dissertação apresentada à Faculdade de Medicina da UEM como parte dos requisitos para obter o grau de Mestre em Saúde Pública. Maputo
MISAU (2005. Relatório Nacional sobre pluralidade cultural e orientação sexual. Maputo
Takiutt, A. (1986). A Adolescente está ligeiramente grávida e agora gravidez na adolescência. São Paulo: Coleção e Sociedade Precisa Saber.
Velasco, V. I. P. (1998). Estudo epidemiológico das gestantes adolescentes de Niterói. [Mestrado]. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública.
 
ANEXOS
Anexo A (Guião de Entrevista A)
O presente guião foi elaborado no âmbito da pesquisa realizada na Escola Comunitária Santo António da Malhangalene.
N.B.: Esse guião é exclusivo para adolescentes-alunas 
Dados pessoas
Idade_____ Nível académico__________ Situação familiar
Por favor, responda o mais sério possível as questões que se seguem, e agradece-se antecipadamente a sua colaboração.
Perguntas
Já ouviu falar da gravidez precoce?
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Qual é a sua relação com os pais face a educação sexual?
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Já teve conhecimento de algum caso de gravidez precoce? Se sim, como foi resolvido.
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Como acha que as adolescentes devem se prevenir da gravidez precoce?
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Já assistiu alguma palestra sobre educação sexual na escola?
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Os teus pais e amigas já lhe falaram sobre a sexualidade?
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Anexo B (Guião de Entrevista B)

O presente guião foi elaborado no âmbito da pesquisa realizada na Escola Comunitária Santo António da Malhangalene.
N.B.: Esse guião é exclusivo para professores 
Dados pessoas
Idade_____ Nível académico__________
Por favor, responda o mais sério possível as questões que se seguem, e agradece-se antecipadamente a sua colaboração.
Perguntas
" Qual é o motivo que leva as adolescentes-alunas a engravidarem-se?
_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
" O que tem falhado para que as adolescentes optem por comportamentos sexuais?
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" Quais são as implicações da gravidez precoce?
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" Que medidas a tomar para a prevenção da gravidez precoce?
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" Que procedimentos são seguidos quando uma adolescente engravida na escola?
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" Que papel têm os pais na educação dos filhos sobre a gravidez precoce?
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3 comentários:

amilcar henrique disse...

ya, gostei da pesquisa. parece-me estar otima, bom trabalho,

Baptista alberto disse...

interessante tema. ele toca a realidade vivenciada na maioria das escolas mocambicanas e afectando em grande numero adolescentes provenientes das populacoes carrenciadas. precisamos encontrar accoes concretas para contornar o mal.

Unknown disse...

wauu... gostei bastante das ricas informacoes.

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